Zélia


Foto: Mike Birdy


Sabe aquela coisa que algumas pessoas dizem quando estão envelhecendo, que se dão conta da finitude ao ver os amigos morrerem? Acredito que exista uma fase que precede essa, mas poucos se dão conta: é a do “nossos pais estão morrendo”. 

Quem derrubou essa ficha na minha cabeça foi a Zélia. À 1h11 da manhã, ouvi a notificação do celular enquanto jogava xadrez com a insônia. Era a Gimi, minha melhor amiga e filha da Zélia. Ela mandou no Cajazeiras, um grupo que temos nós duas e minha irmã. Zélia se foi.

Imediatamente levantei e liguei para ela, o que talvez não tenha sido a melhor ideia, porque eu estava tão atônita que não consegui dizer as melhores palavras. Sabia que Zélia estava doente, mas também sabia que ela se tratava e estava sob controle. Para mim, foi difícil acreditar, então tentei medir a dor da minha amiga – e não consegui evidentemente. Acho que “te amo, amiga” é uma boa ideia. Só queria que ela soubesse que eu estava com ela, mesmo estando longe.

A minha tristeza extrapola o fato de Zélia ser mãe da minha melhor amiga. Ela foi uma pessoa muito querida na minha vida e de quem tenho algumas das poucas lembranças boas que trago da juventude. A Gimi e eu nos conhecemos há mais de trinta anos, na adolescência, e logo começamos a frequentar as casas uma da outra.

Zélia tinha um armazém na esquina da nossa rua, desses que vendem de tudo, de gêneros alimentícios a produtos de armarinho – também chamado de mercearia ou bodega dependendo de onde você vem. No fim do dia, depois do trabalho ou da aula, sentávamos na calçada do armazém ou na porta e ficávamos jogando conversa fora. 

Zélia tinha um humor fantástico. Ela sempre encontrava um dado sensível para tirar sarro da gente, uma gurizada que estava entrando na vida adulta achando que estava arrasando. Certa vez arrumei um namorado estranho numa viagem que fiz com a família da Gimi. O rolo durou dois meses, mas a zoeira se eternizou. Acho que esse era meu dado sensível, os boys esquisitos. E o fato de eu não saber dirigir. E ser desastrada.

Nesses fins de tarde eu também tomava chimarrão no armazém. Eu não tomava chimarrão. Digo, não tinha o hábito, não tomava em casa. Era só o chimarrão da Zélia que eu tomava.

O apelido Cajazeiras também foi inspiração dela. Dizia que a Gimi, minha irmã e eu parecíamos as Irmãs Cajazeiras, personagens de O Bem Amado, de Jorge Amado. Na adaptação para a TV, as três mulheres andam sempre de braços dados.

E quase esqueci: ela me vendia cigarro fiado. Eu tinha um caderninho no armazém, cujo fluxo era movimentado por Fandangos de presunto e LM. Ela viveu para me ver parar fumar.

Enquanto as mães de outras amigas me consideravam má influência para as filhas delas, a Zélia nunca me hostilizou. Talvez ela tenha sido a primeira pessoa a perceber que havia algo errado comigo. Fiz muita coisa louca, mas não era má pessoa. Queria que ela soubesse. Talvez ela tenha sabido.

Estou me sentindo estranha por não ter conseguido ir no funeral. Devia estar lá, confortando minha amiga. Não dormi o resto da noite tentando encontrar passagem, mas não rolou. Passei o dia como se estivesse a velar. Talvez seja meu jeito de me despedir.

Nos últimos quase vinte anos, vi muito pouco a Zélia e a família da Gimi em geral, pois me mudei para mais de 1.200 km de distância e tenho voltado pouco à minha terra natal. Há mais ou menos dois meses, estive lá e fiz questão de visitar os pais da Gimi. Não achei que fosse me despedir de um deles, mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, é muito bom tê-la visto.

Ainda não tomo chimarrão, por falta de hábito e por problemas gástricos, mas naquele dia tomei. Estava acolhedor. É isso, a Zélia me fazia sentir acolhida. Trocamos algumas notas sobre a vida, ela fez piada, falou sobre o tratamento. Combinei que ia com a Gimi à praia na terça para buscar o andador dela. Nos despedimos, e fui ao cinema. Na terça choveu.

Estamos vivendo, e a próxima geração a se extinguir é a nossa. A morte da Zélia, significa a perda de uma mãe notável e amada e o início real da nossa finitude.

Quando meu pai morreu, eu estava ocupada sendo uma filha em luto e não pensei nisso. No funeral dele, meu ex-namorado, que não era esquisito, cujo pai havia falecido apenas alguns dias antes, disse uma coisa: de certa forma, somos privilegiados por ter convivido com nossos pais até a nossa idade. Agora entendo melhor o que ele quis dizer.

Para a Gimi, seu Nelson, Márcio e Marcelo, um abraço bem grande! Nada que eu disser vai mudar o que vocês estão sentindo. De qualquer forma, sinto muitíssimo!

Para a Zélia… muito obrigada!  

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