[DIÁRIO] Tô me guardando pra quando o Carnaval chegar


E quem me vê apanhando da vida
Duvida que eu vá revidar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar.
Chico Buarque


Carnaval, carnaval, carnaval
Fico tão triste quando chega o carnaval.
Luiz Melodia


Meus pais se conheceram num baile de Carnaval no início da década de 1970. No final da mesma década, eu fui concebida, Carnaval de Florianópolis de 1978.

Eu amo o Carnaval!

Minha vida foi toda atravessada pelo Carnaval. Não por coincidência ou conjunção dos astros, mas porque, como você pode ver, eles gostavam de Carnaval. Mal aprendi a andar e lá estava eu nas matinês.

Eu devia ter uns dois anos no meu primeiro Carnaval. Minha mãe me fantasiou, e meu pai me pegou pela mão, junto com meus primos, e me levou para o clube da cidade. Não lembro, mas as fotos são a minha memória.

Depois dos cinco ou seis anos, passávamos o verão na praia de Quintão. Ganhei uma irmãzinha, e minha mãe passou a fazer fantasias para duas. Eles nos levavam para a matinê de um lugar chamado Terraço, que anos depois virou Aloha, uma baladinha que frequentei por muito tempo. Mas isso é outra história.

As crianças brincavam, catavam serpentina e confete no chão, enquanto os pais bebiam cerveja Malt 90 quente. Na época, eu já pulava Carnaval com algumas das que seriam minhas amigas pela vida toda. Inclusive no Aloha.

Havia um palhaço animando o rolezinho da criançada – no Terraço, no caso, não no Aloha. Uma vez ele resolveu fazer um concurso de dança. O prêmio era um Teem KS, um refrigerante de limão famoso dos anos 1980, “para a sua pior sede”. Não sei se ainda existe.

Ora, todo mundo que me conhece sabe que não sei dançar. Já fui abandonada no meio da pista por um garoto que perdeu a paciência. Não o culpo. Aparentemente, contudo, eu não sabia disso naquela época. E ganhei o concurso. Lá fui eu subir no palco para pegar o prêmio e, de sobra, dançar com o palhaço.

O tempo passou, e continuei em Quintão. Minha irmã e minhas amigas também. Nos divertíamos o verão inteiro, mas quando chegava o Carnaval… era outra coisa. O balneário ficava mais cheio, vinha gente de fora, tinha trio elétrico. Pensando bem, não era tão diferente assim, mas, sei lá, era Carnaval.

Um dia, meus pais venderam a casa. O Carnaval mudou.

Em 2007, mudei para São Paulo. Um tempo depois, casei. Não só o Carnaval, mas a vida também mudou. Passei alguns anos na natureza, e foi legal pra caramba.

Quando me separei, vim morar no bairro mais Carnaval de São Paulo. Não foi pensado a princípio, mas o clima de samba ajudou a me decidir. Foi aqui que me encontrei, não só com relação ao samba e ao Carnaval, mas ao modo de vida.

O Carnaval de São Paulo, até uns dez anos atrás, era terra arrasada. Era bom para visitar museus e curtir atrações do gênero, porque a cidade, sempre lotada, ficava vazia nesta época do ano. Eu ia para o Rio de Janeiro. Ah, o Rio… Tenho uma melhor amiga lá fanática por Carnaval. Foram carnavais incríveis.

Mas, não sei se pela crise econômica, alguma chave virou e hoje o Carnaval de São Paulo é um dos maiores. E adivinha onde estou? Pois é, estou onde tudo acontece.

Acontece mesmo. Em 2019, combinei de me encontrar com um cara que estava saindo. Começou a chover, e eu entrei no bar dos meus amigos. Do nada, uma amiga perguntou o que eu ia fazer. Eu falei, e ela: “Não vai mais, vamos desfilar”. E já gritou para alguém “põe o nome dela aí”, ou algo do tipo.

É óbvio que eu estava superfeliz. Era o Carnaval de bairros. Desfilei pela primeira vez na Primeira da Aclimação. No ano seguinte, fui de novo, desta vez na ala das baianas e levei minha irmã. Depois da pandemia, desfilei na Penha. Nunca pisei no Anhembi, embora seja um sonho antigo, mas isso já foi demais.

Os blocos mais tradicionais estão aqui. Em 2018, conheci o bloco mais antigo da cidade, o Esfarrapado – junto com a minha irmã. Ela se mudou para São Paulo também, e isso tornou tudo mais divertido. Desde então, virou nossa tradição da segunda-feira de Carnaval.

Gosto de juntar as amigas em casa para se maquiar, de inventar fantasia. Quando começo a chegar perto do bloco, quando escuto as primeiras batidas, juro, meu coração acelera. São alguns dias, algumas horas do ano que corro pelas ruas rindo e cantando marchinhas, abraçando estranhas e estranhos sem medo, fazendo amizades que nunca mais verei, encontrando conhecidos como nunca vejo no dia a dia.

É o que se chama de felicidade.

Só que não faço só isso. Estou doente, passando por um momento complicado. Estou proibida de pular Carnaval? Não. Contudo, não é conveniente. Este ano não vai ter Carnaval pra mim.

Escuto os blocos que já começaram a desfilar e fico triste. Não tem como escapar. Como eu disse, estou onde tudo acontece. A partir de amanhã, sábado, vai ser terrível. A segunda-feira vai ser pior. O Esfarrapado (como quase todos os blocos) vai passar na esquina de casa. Queria ir para um lugar onde pudesse ficar blindada.

E repito: eu amo o Carnaval.

Mas não posso. Porque o Carnaval é uma lembrança cruel de quem não sou mais. 


Postar um comentário

0 Comentários